Declaração do Rio de Janeiro
Os Ministros e Chefes de Delegação dos países da América Latina, Caribe e União Européia, e o representante da Comissão Européia, presentes no III Fórum Ministerial ALC-UE sobre a Sociedade da Informação, realizado nos dias 22 e 23 de novembro de 2004, no Rio de Janeiro, Brasil:
- Recordando que este III Fórum cumpre mandato estabelecido pelos Chefes de Estado e de Governo das duas regiões na declaração política da III Cúpula América Latina e Caribe – União Européia celebrada em Guadalajara (México), em 28 e 29 de Maio de 2004
- Ressaltando que o III Fórum consolida tradição de diálogo sobre a Sociedade da Informação entre as duas regiões, tendo por base os encontros realizados anteriormente em Sevilha, em 2002, e em Lima, em 2003.
- Sublinhando o entendimento de que a Sociedade da Informação deve ter por objetivo fundamental a busca do desenvolvimento humano e o bem-estar social, cultural e econômico.
- Recordando que os Chefes de Estado e de Governo na Cúpula de Guadalajara exprimiram a determinação de construir sociedades mais justas e coesas, sendo este um dos elementos principais da parceria estratégica birregional.
- Reconhecendo os esforços em curso nas duas regiões para reduzir o hiato digital, exacerbado pelo fosso econômico e social existente tanto dentro quanto entre os países da ALC e da UE, e que a superação desse quadro requer políticas públicas que reconheçam as realidades nacionais e regionais.
- Considerando os pontos de vista dos representantes da sociedade civil, setor privado, organizações internacionais e outros atores que participaram do III Fórum.
- Reiteram o compromisso de cooperar em projetos de erradicação da pobreza, desigualdades e exclusões sociais, bem como na prevenção de qualquer nova forma de segregação social.
- Afirmam compromisso com a promoção de políticas públicas que estimulem o investimento, que melhorem a distribuição de renda e assegurem o desenvolvimento sustentável, fomentando bem-estar e progresso para todos, sobretudo em áreas como educação, ciência, inovação, treinamento profissional, saúde, cultura, emprego, cidadania, transparência e eficiência governamentais, criando sociedades democráticas mais fortes, justas e participativas. Essas políticas públicas devem levar em conta o impacto das novas tecnologias sobre os direitos humanos, sociais e culturais e sobre o meio ambiente.
- Apóiam, em particular, a criação, disseminação e preservação de conteúdos culturais em línguas e formatos diversos, que deverão assumir alta prioridade na construção de una Sociedade do Conhecimento inclusiva, plural e democrática.
- Reafirmam a convicção de que não será possível alcançar todos os benefícios da Sociedade da Informação enquanto não se reduzir o fosso que separa os que têm e os que não têm acesso às Tecnologias da Informação e Comunicações (TICs) e à educação necessária para seu uso efetivo. Enquanto não se diminuir a distância que separa os países com domínio sobre tais tecnologias e aqueles que com elas mantêm relação de dependência, será necessário construir mecanismos que aumentem a difusão e desenvolvimento das TICs nestes últimos.
- Sublinham que as TICs constituem ferramentas para fortalecer o exercício da cidadania, assegurando acesso mais amplo ao governo, às autoridades públicas e aos serviços básicos que a sociedade demanda. É necessário que, na Sociedade da Informação, prevaleça um equilíbrio justo entre, por um lado, os interesses comerciais e os direitos de propriedade intelectual e, por outro lado, os interesses e necessidades de países e sociedades sem capacidade de competir no mercado internacional de produção de tecnologia e conhecimento avançados.
- Afirmam que a inclusão digital requer solidariedade e parceria entre os governos e outros atores, em particular a sociedade civil, o setor privado e as organizações internacionais. As iniciativas de cooperação, tanto dentro dos espaços nacionais, quanto entre os Estados e entre as regiões, devem contribuir para a conformação de uma agenda de solidariedade digital, que construa as bases para o surgimento da Sociedade da Informação em áreas e regiões menos desenvolvidas.
- Solicitam aos líderes políticos da América Latina e Caribe e da União Européia que apóiem uma Sociedade da Informação promotora da rica diversidade cultural e pluralidade que caracterizam os países de ambas as regiões e sub-regiões.
- Sublinham que para se construir uma Sociedade da Informação são necessários mecanismos internacionais eficazes de cooperação e financiamento. Acordam desenvolver, nesse contexto, uma aliança para a coesão social, tendo por referência o Plano de Ação da Cúpula Mundial sobre a Sociedade da Informação (CMSI). Adotam, nessas bases, o Programa de Trabalho Birregional para a Inclusão Digital (em anexo), no qual estão incluídas propostas de transferência de tecnologia e cooperação em áreas específicas.
- Acolhem com satisfação o trabalho realizado no âmbito do programa @LIS (Aliança para a Sociedade da Informação), da Comissão Européia, de cooperação entre a União Européia e a América Latina e Caribe, ressaltando sua importância e impacto.
- Congratulam-se pelo lançamento da primeira rede pan-Latino-Americana de pesquisa e educação, CLARA (Cooperação Latino-Americana para Redes Avançadas), e sua interconexão com a rede pan-Européia GÉANT - um dos resultados mais relevantes do programa @LIS. Apóiam o objetivo da expansão da cobertura da rede a toda a região. Acreditam no potencial da Rede CLARA como plataforma para múltiplas iniciativas de cooperação em educação e pesquisa e desenvolvimento em áreas de interesse mútuo para ambas as regiões e realçam a importância de sua futura sustentabilidade.
- Ressaltam a importância do desenvolvimento de políticas e marcos regulatórios apropriados e de um ambiente favorável à utilização das TIC para o desenvolvimento econômico, cultural e social das duas regiões. Congratulam-se pelo trabalho já realizado e apóiam o aperfeiçoamento dos mesmos em cooperação com outros países e em consonância com as recomendações da CMSI.
- Tomam nota, com satisfação, do lançamento do projeto da Comissão Européia intitulado “Diálogo Político e Regulatório” - iniciativa no marco do programa @LIS, executada pela CEPAL, Nações Unidas, em apoio a um diálogo birregional sobre a Sociedade da Informação. Esse diálogo inspira-se nos resultados da estratégia “eEurope – Uma Sociedade da Informação para Todos”, e nas respectivas “estratégias digitais” dos países da América Latina e Caribe. Confiam em que o projeto subsidie diálogo e cooperação birregionais sobre marcos políticos e regulatórios.
- Tomam nota, nesse contexto, dos acordos alcançados durante a III Cúpula de Presidentes dos Órgãos Reguladores de telecomunicações da América Latina (REGULATEL) e da Europa, celebrada em 18 e 19 de novembro de 2004, em Cuzco, Peru.
- Insistem na importância do desenvolvimento de padrões internacionais abertos que, no marco da neutralidade tecnológica, permitam igual acesso ao software livre, software de fonte aberta, e ao software proprietário. Nesse contexto, valorizam os esforços de desenvolvimento de projetos e experiências que utilizem software livre e software de fonte aberta. Este marco permitiria a promoção e a produção de tecnologias e conteúdos servindo aos interesses públicos em todos os níveis, mantendo-se elevado grau de interoperabilidade de sistemas, de modo a ampliar as economias de escala no domínio público, em benefício, sobretudo, dos países em desenvolvimento. Tomam nota, com interesse, do desenvolvimento do diálogo sobre padrões entre entidades públicas e privadas em ambas as regiões. Apóiam os objetivos desse diálogo em todos os aspectos relacionados com infra-estrutura, serviços, aplicações, segurança e interoperabilidade.
- Constatam que alguns países em ambas regiões já desenvolveram plataformas técnicas e serviços públicos de governo eletrônico de alta qualidade, apoiando-se em suas próprias capacidades e recursos humanos. Tratando-se de aplicações públicas, é grande o potencial para iniciativas conjuntas mutuamente benéficas. As duas regiões explorarão, pois, as oportunidades de cooperação em governo eletrônico, que incluam transferência de tecnologias, plataformas e serviços, bem como o intercâmbio dos respectivos conhecimentos e capacidades.
- Enfatizam a importância das questões relacionadas à Governança da Internet, tema que se torna mais importante à medida que a Internet se expande e se impõe sobre áreas de interesse tanto público quanto privado. Em consonância com a decisão tomada durante a primeira fase da Cúpula Mundial da Sociedade da Informação, ocorrida em Genebra, em dezembro de 2003, exprimem seu apoio ao grupo de trabalho estabelecido pelo Secretário-Geral das Nações Unidas para estudar o tema e preparar relatório a ser submetido ao processo preparatório da segunda fase da Cúpula, prevista para Tunis, em Novembro de 2005. Confiam em que o aprofundamento do assunto permitirá acordo equilibrado e consensual que estabeleça parâmetros para uma gestão multilateral, transparente e democrática da Internet, com plena participação dos governos, da sociedade civil, do setor privado e das organizações internacionais pertinentes. Concordam com a necessidade de assegurar a estabilidade e o potencial de crescimento da Internet.
- Apóiam o diálogo, a troca de experiências e o desenvolvimento de iniciativas conjuntas dirigidas à segurança das redes e à privacidade das informações, tendo por base o reconhecimento da soberania dos Estados e o respeito aos direitos e liberdades individuais. Tal cooperação deverá buscar um consenso internacional em torno dessas questões, facilitando o acesso aos benefícios da Internet àqueles ainda excluídos da rede mundial de comunicação digital.
- Comprometem-se, em coordenação com organismos internacionais e regionais, como a CEPAL, a Comissão Européia, a UNESCO e a UIT, a colaborar para o êxito da segunda fase da CMSI, em novembro de 2005, trabalhando em prol de uma agenda internacional da Sociedade da Informação que seja sensível às aspirações e prioridades dos países em desenvolvimento.
- Agradecem o Governo brasileiro e o Governo do Estado do Rio de Janeiro pela hospitalidade e apoio que tornaram possível a realização deste III Fórum Ministerial América Latina e Caribe e União Européia sobre a Sociedade da Informação.